A despenalização só de algumas das reformas antecipadas, 28-8-2017

Vem isto a propósito de alegarem só serem despenalizadas as reformas antecipadas de quem tenha 46 anos de descontos por começar a trabalhar aos 14 anos, para se pagar dívida da sociedade a esses que não puderam estudar mais por terem de ir trabalhar.

Desculpa “esfarrapada”, infeliz, por medida ser boa mas insuficiente.

Aconteceu que, já em princípios deste século, porque era preciso arranjar dinheiro para estádios de futebol, rotundas, auto-estradas, etc., foram alteradas as regras para o valor das reformas: passaram a depender da média dos últimos 40 anos de descontos, o que as reduz substancialmente, misturando o que se ganha em princípio de vida com o que se alcança pela maior qualificação ao longo da vida. Para a maioria, é cair na miséria de um dia para o outro, ao reformar-se.

E tanto faz ter 40 como 42 ou 46 anos de descontos. A regra é sempre a mesma: a dos últimos 40.

Porém, como entenderam que essa penalização não chegava, inventaram também multas por reformas antecipadas. E ainda incerteza de qual iria ser a sua idade sem multa, por depender duma “esperança” de, provavelmente, quem sabe, terem a sua vida mais prolongada!

Chamaram-lhe “penalização”, mas é equivalente a multa, pelo “crime” de se verem forçados a pedir antecipação da idade de reforma em um ou dois anos! Com a agravante de tal multa consistir em se apropriarem de alguns anos de descontos e de a multa ser vitalícia. Durante todo o resto da sua vida, seja ela de 2 ou de 20 anos!

Mas voltemos à alegação dada de que o ter de exercer um ofício cedo constituiu “dívida” “da sociedade”.

Meu pai só tinha a 4ª classe, minha mão analfabeta. Tenho muito orgulho neles, muitíssima saudade também.

Ambos exerceram trabalho “infantil”, para subsistência. Aos seus 4 filhos conseguiram dar-lhes a sua boa educação.

Mas não podiam eles próprios dar-lhes também instrução. E, por saberem do que ela valia e por quererem que os filhos tivessem melhor vida, fizeram “das tripas coração” pagando-lhes propinas, comprando-lhes livros, compartilhando a comida e tudo o resto. Vida bem austera, como fatiota dos mais velhos passando para os mais novos, à medida que iam crescendo.

Meu pai só nos dizia: vão estudando porque se chumbarem eu não consigo aguentar e vêm trabalhar comigo.

Mas nós gostávamos de aprender. E todos os seus 4 filhos tiraram curso superior, em diferentes ramos do conhecimento, e todos fomos bons nas nossas profissões. Nunca tive um chumbo, nunca tive explicador. Explicações, encontrei-as por vezes nos livros que ia consultar na biblioteca nacional da Rua Ivens quando no liceu, e mais tarde na da Faculdade de Ciências.

Mas se, agora, pedíssemos reforma e antecipada, nenhum de nós poderia escapar à tal “multa”. Porque o nosso “trabalho infantil” foi estudar. Multa também indirectamente reflectida nos nossos queridos pais, por, em criança, nos terem proporcionado estudo, em vez de algum outro trabalho por conta de outrem!

António José de Matos Nunes da Silva

 


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